Quarta feira, por volta de 16h e 30 graus.

No segundo gole de café expresso, curto e forte, daquela tarde de verão, estava em férias na grande cidade e olhava as pessoas a fim de brincar de flâneur, nesse momento a vi pela primeira vez. Tirou o brinco da orelha esquerda para falar ao telefone. O toque do celular era alguma coisa bem discreta, mas percebi, não tinha nada de música e sim de suave chamamento. O brinco era grande e se enroscou um pouco nos cabelos da nuca, bem avermelhado em torno da casca de árvore brasileira, artesanato que revelava um frescor e jovialidade que combinava com a musculatura do braço, a tatuagem no punho e os cabelos castanhos. Seus olhos eram de um verde próximo do cinza. Mas naquele momento não vi assim, só percebi que eram claros.
Não ouvi sua voz. Ela atrás do vidro dava uma impressão mais forte, própria de admiração, como se a moça estivesse numa vitrine. Caixa de vidro como também fosse uma cabine de telefone, daquelas vermelhas de Londres... Ela falou pouco, desligou e seu rosto era triste e calmo. Fiquei observando-a de maneira furtiva, em nenhum momento ela olhou em minha direção e também parecia não olhar para direção e nem sentido algum. A tentação era ir até a mesa atrás do vidro e olhar mais de perto, ou mesmo sentar ao seu lado e sentir o cheiro da bebida quente que estava tomando. Pagar a conta, oferecer um chocolate, uma música, um cigarro, um poema, uma mentira. Quanto mais eu pensava em como me aproximar, mais ridículo e cafona achava as idéias, todas eram cantadas baratas, bobas e chatas. Havia um vidro espiritual também entre mim e aquela mulher. Um forte calor do lado de fora e um ar-condicionado bem frio do lado de dentro. Alguma coisa se iluminou dentro de mim. Abri o zíper da carteira para pagar, deixei na mesa uma gorjeta boa e uma fotografia que carregava.

CONTO ERÓTICO PARA BÁRBARA
Júlio Paulo Calvo Marcondes
São Paulo
Sábado, 14 de fevereiro de 2009

CONTO ERÓTICO PARA BÁRBARA

Uma noite fria

O vinho é doce, mas o rótulo é bonito sob a luz das velas. Quatro velas de cor diferente iluminavam a cozinha, o toque dos pés mesmo de meias no piso era gelado, e os cheiros de ervas e gostos diferentes na boca estavam nos deixando cada vez mais felizes. Passei a capa do livro no rosto dela, a edição espanhola de D. Quixote de encadernação de veludo bordô. Ela retribuiu passando um pires gelado de inox debaixo de meu queixo. Puxei-a para mais perto de mim laçando sua nuca com uma gravata de seda de cor branca, amarela e cinza, os botões da minha camisa já estavam abertos, e cada casinha da camisa vermelha cabia um desejo. Ela pediu um incenso e deixou derramar vinho doce no prato das frutas. Tentei abrir a janela de seu humor e acender seu sorriso. Ela disse para eu não tentar, pois isso só ela poderia me dar. Joguei calda de vinho do porto com frutas sobre o queijo Brie bem quente e ele estourou ao toque do garfo, parecendo uma gema de ovo quando se arrebenta. A fumaça das velas e do incenso deixava a cozinha mais aconchegante naquele frio. Ela me pediu uma blusa, fui buscar e me senti sozinho naquele corredor longo e gelado.

Júlio Paulo Calvo Marcondes
São Paulo
Sábado, 14 de fevereiro de 2009



Uma pequena homenagem a um grande homem e professor.